
O Monitor do Debate Público (MDP) acompanha, semana a semana, como diferentes segmentos do eleitorado brasileiro reagem a temas importantes da agenda pública. A análise se apoia no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela equipe do LEMEP (IESP-UERJ) que opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Para o segundo turno das eleições de 2026, reorganizamos os participantes em cinco grupos focais contínuos no WhatsApp, definidos a partir do voto no primeiro turno e da principal motivação desse voto.
O projeto conta com 50 participantes, distribuídos em grupos com as seguintes características:
G1 – Bolsonaristas: votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, motivados por considerá-lo a melhor opção.
G2 – Antipetistas: votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro turno, motivados principalmente por tirar o PT e Lula do poder.
G3 – Outsiders Indecisos: votaram em outros candidatos que não Lula nem Flávio Bolsonaro no primeiro turno e estão indecisos quanto ao segundo turno.
G4 – Antibolsonaristas: votaram em Lula no primeiro turno, motivados principalmente por impedir a vitória de Flávio Bolsonaro.
G5 – Lulistas: votaram em Lula no primeiro turno, motivados por considerá-lo a melhor opção.
Todos os grupos foram compostos de modo a reproduzir, em proporções próximas às da população brasileira, variáveis como sexo, idade, cor/raça, renda, escolaridade, região de moradia e religião.
Nossa metodologia permite que os participantes respondam aos temas no momento que lhes for mais conveniente — liberdade inexistente nos grupos focais tradicionais, presos à sincronia do roteiro conduzido pelo mediador. Ao se acomodar à rotina de cada participante, o instrumento reduz a artificialidade da coleta e gera resultados mais próximos das interações reais do cotidiano.
Cabe salientar que os resultados derivam de metodologia qualitativa, voltada à análise de narrativas, argumentos e opiniões. Ainda que eventualmente quantificados, não possuem validade estatística: devem ser lidos como dado indicial.
O sigilo dos dados pessoais dos participantes é integralmente garantido. Todos consentiram previamente com a divulgação dos resultados, desde que preservado o anonimato.

| Bolsonaristas (G1) | Antipetistas (G2) | Outsiders Indecisos (G3) | Antibolsonaristas (G4) | Lulistas (G5) | |
|---|---|---|---|---|---|
| Prospera MEI | Rejeitaram o pacote por considerá-lo eleitoreiro, desacreditando das promessas e questionando os impactos fiscais das medidas. | Reconheceram os benefícios para os MEIs, mas interpretaram o anúncio como uma tentativa de conquistar votos, com dúvidas sobre sua concretização. | Aprovaram as propostas pelo potencial de ajudar os pequenos negócios, mas cobraram sua implementação e questionaram o momento eleitoral e a viabilidade financeira. | Aprovaram amplamente as medidas, destacando o alívio das dívidas, a retomada dos negócios e o estímulo à economia. As críticas eleitorais foram pontuais. | Apoiaram as propostas pelos benefícios aos empreendedores, embora parte reconhecesse que foram anunciadas tardiamente e por motivações eleitorais. |

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou nesta terça-feira um pacote de medidas para apoiar os microempreendedores individuais (MEIs). O conjunto de medidas foi batizado de Prospera MEI. Consta no projeto o perdão de dívidas tributárias de todos os MEIs inscritas na dívida ativa da União. São 3,6 milhões de pessoas beneficiados, com impacto R$ 12, 6 bilhões. O projeto ainda precisa passar pelo Congresso. Também foi anunciado o Pix MEI. Segundo o governo, trata-se de dinheiro direto na mão do microempreendedor, até R$ 5 mil. Isso valeria a partir do ano que vem. Por fim, o governo também reforçou o pedido para o aumento do teto do MEI, que está em tramitação no Congresso. O projeto em discussão eleva o teto R$ 81 mil para R$ 140 mil por ano.
O que vocês acham dessa medidas? São bons projetos para ajudar o empreendedorismo?

Os bolsonaristas receberam o pacote com forte desconfiança e interpretaram seu lançamento como uma tentativa de recuperar votos às vésperas do segundo turno. Predominou a percepção de que as propostas não refletiam uma preocupação genuína com os microempreendedores, mas uma estratégia eleitoral diante das dificuldades enfrentadas pelo governo. O momento do anúncio foi o principal argumento utilizado para questionar as intenções de Lula, reforçando a descrença nas promessas e a convicção de que as medidas não alterariam suas posições eleitorais.
Embora alguns reconhecessem que as iniciativas poderiam beneficiar os MEIs, essa avaliação ficou em segundo plano diante da rejeição ao governo. Os participantes consideraram que os problemas enfrentados pelos pequenos empreendedores deveriam ter sido tratados anteriormente e demonstraram preocupação com os custos das propostas para as contas públicas.
“A medida é ótima para quem é MEI só acho que não alcançará o objetivo eleitoreiro para o qual foi lançado, já que os MEI's não vão esquecer o que levou eles a estarem endividados, como por exemplo a alta carga tributária e os juros altos que os impedem de crescer.” (G1, 46 anos, administradora, GO)
“Bom dia; medida eleitoreira pra angariar votos, está desesperado, não concordo, se fosse Bolsonaro já teria barrado, dia 25 é 22” (G1, 37 anos, assessor jurídico, SE)
“Que são bons projetos,sem dúvidas são,mas já calcularam o impacto disso mais a frente ? E outra coisa , por que Lula não deu isto antes ? Deixou ver a campanha dele afundar para poder dar este benefício ao a MEIS,isto é só desespero,mas o povo já abriu os olhos e vão fazer o certo.” (G1, 57 anos, funcionário público, PB)
“Como já falamos, estão desesperados aplicando medidas em cima de medidas para tentar ‘comprar’ o povo novamente, e não estão pensando no bem estar Financeiro do Brasil, perdoando uma dívida de mais de 12 bilhões, que com certeza vai respingar nos impostos, e quem vai pagar somos nós.” (G1, 29 anos, vendedor de comércio varejista, AL)
“Promessas como da Picanha... Não muda meu voto !!” (G1, 42 anos, agricultor, CE)

Os antipetistas e os outsiders indecisos reconheceram o potencial das medidas para beneficiar os microempreendedores, especialmente pela possibilidade de aliviar dívidas, ampliar negócios e estimular a geração de empregos. Entretanto, essa avaliação positiva foi acompanhada de desconfiança quanto ao momento escolhido para o anúncio e de dúvidas sobre a efetiva implementação das propostas. Predominou a percepção de que os projetos poderiam trazer resultados importantes, mas que sua aprovação e execução seriam fundamentais para que os benefícios anunciados se concretizassem.
As diferenças apareceram principalmente na maneira como cada grupo interpretou as intenções do governo. Entre os antipetistas, prevaleceu a leitura de que o pacote representou uma tentativa de conquistar votos, reforçada pela percepção de que Lula não havia priorizado os microempreendedores anteriormente. Já os outsiders indecisos demonstraram uma postura mais pragmática, valorizando os possíveis benefícios, mas questionando a viabilidade financeira, a dependência de aprovação legislativa e a ausência de soluções estruturais para o empreendedorismo.
“Sou a favor das medidas e acredito que sejam bons projetos para os microempreendedores. Porém o anúncio parece muito mais uma tentativa desesperada de conquistar votos do que uma preocupação em beneficiar a população. Além disso ainda existem muitos questionamentos, por exemplo: quais serão os critérios para a escolha dos beneficiários? Isso também nao esta claro. Anunciar benefícios a menos de 2 semanas do 2º turno é uma coisa, na pratica a situação é outra.” (G2, 36 anos, coordenadora, AM)
“As medidas são boas, era beneficiar o trabalhador, entretanto considero uma falta de respeito com quem sempre arcou com as despesas em dia. Ou seja, quem paga certinho não recebe nenhum beneficio, e quem atrasa tem a dívida perdoada. O mesmo aconteceu com o fies. No mais, é somente desespero do Lula, tendo em vista estar perdendo as eleições.” (G2, 30 anos, advogada, SP)
“Acho os projetos bons, porém é uma medida desesperada ( tentativa de continuarno poder). Deveria ter sido algo pensado antes e analisado, pois vai gerar custos. Mas são ótimas medidas para os MEI.” (G2, 33 anos, técnico de segurança do trabalho, DF)
“São bons projetos, espero que sejam realmente aprovados pelo congresso, pq projetos que não saem do papel não valem de nada” (G3, 44 anos, guia de turismo, SE)
“Claro que é uma medida que beneficiaria bastante os micros empreendedores , principalmente por muitos não terem um capital (mesmo pouco) para ajudar no crescimento de seus comércios , a única questão que fica , do porque não oferecerem esses benefícios antes de eleições ? Aguardar período eleitoral para citar certos projetos . Mas que se caso o Senado aprove, será de grande benfeitoria.” (G3, 32 anos, assistente administrativo, PE)
“Normalmente são projetos bons na época de campanha, porém cada 4 anos quem ganha não tem cumprido com suas promessas e obrigações! Mas respondendo sua pergunta, as medidas são boas.” (G3, 50 anos, almoxarife, SC)
“Eu li por alto as principais medidas desse projeto e achei bem mais ou menos. Já fui MEI por uns 5 anos e entendo como o projeto vai ser bom em relação ao aumento do limite de faturamento e em relação a desburocratização. Em contrapartida eu acho que o "pix mei" e o perdão de dívidas escancaram o problema crônico do governo Lula, que não preza por mudanças estruturais, mas adota por medidas de "tapa buraco".” (G3, 31 anos, educador, RJ)

Os dois grupos de eleitores de Lula receberam o pacote de forma predominantemente positiva, reconhecendo seu potencial para aliviar as dificuldades financeiras dos microempreendedores, favorecer a retomada de negócios e estimular a circulação de recursos na economia. As propostas foram interpretadas como oportunidades de recuperação e crescimento para pequenos empreendedores que enfrentavam dificuldades para manter suas atividades. Prevaleceu a percepção de que o apoio financeiro e a regularização das dívidas poderiam fortalecer o empreendedorismo, ampliar investimentos e contribuir para a geração de empregos.
As diferenças apareceram na avaliação do momento escolhido para o anúncio. Entre os antibolsonaristas, predominou o reconhecimento dos benefícios econômicos e sociais, embora alguns também questionassem as motivações eleitorais do governo e demonstrassem dúvidas sobre a concretização das propostas. Já os lulistas manifestaram apoio mais consistente às iniciativas, mesmo quando reconheceram seu caráter tardio e eleitoral. Nesse grupo, as críticas ao momento do anúncio não reduziram a percepção de que as medidas eram necessárias e poderiam produzir resultados positivos para os trabalhadores e pequenos negócios.
“Bom dia Eu acredito que essas medidas são muito bem vidas e positivas, para ajudar os micros trabalhadores e empreendedores a sair das dívidas e conseguir crédito para investir e crescer. É importante também ter um bom planejamento junto ao sebrae para que não venha a ficar em débito novamente.” (G4, 45 anos, vigilante, PE)
“Sim muito bom, para ajudar os micro empreendedores. Facilita muito, peduar as dívidas e começar do zero, muitos na pandemia não tiveram como continuar com o comércio e ficaram devendo ao governo, com essa medida terá uma esperança de começar a empreender novamente.” (G4, 36 anos, desempregada, RN)
“Pra tudo há prós e contras. É uma excelente noticia aos MEIs, que poderão limpar o nome, participar de licitações, etc. Porém, o 1º pensamento que me veio à cabeça foi o desespero sobre o 2º turno. Há várias falas, projetos e atitudes que só surgem em momentos de tensão que coloca em risco a vitória do candidato. Não me parece uma atitude genuína, mas sim uma tentativa de ganhar votos.” (G4, 29 anos, assistente administrativo, DF)
“Com certeza é positivo! Vejo aí mais uma oportunidade de investimento para os microempreendedores manterem seus negócios, terem um capital de giro e conseguirem investir mais em seus negócios.” (G4, 24 anos, estudante, GO)
“Acredito que são medidas super necessárias para ajudar o microempreendedor a pagar suas dívidas e ampliar seus negócios, incentivando a geração de emprego. Entretanto, acredito que precisam vir acompanhadas de educação financeira e formalização, para que sejam benefícios realmente duradouros.” (G5, 35 anos, pesquisadora, PR)
“São ótimas medidas, um pouco tardia, mas ótimas. A população esquece que quem criou o MEI foi o Lula e antes disso era muito mais burocratico, cansativo, desgastante e caro criar qualquer empresa no Brasil.” (G5, 36 anos, professor, SP)
“Olá, pessoal. Considero as medidas importantes, mas tardias e eleitorais. Espero que tenha um efeito prático na vida dos empreendedores” (G5, 48 anos, servidor público, PA)

O pacote de medidas para os MEIs recebeu avaliações predominantemente positivas, inclusive entre participantes críticos ao governo. Entretanto, o momento do anúncio, às vésperas do segundo turno, despertou desconfiança sobre suas motivações eleitorais, especialmente entre bolsonaristas e antipetistas.
A principal diferença entre os grupos esteve no peso atribuído aos benefícios e às intenções do governo. Enquanto os bolsonaristas priorizaram a crítica política, os antipetistas e outsiders indecisos reconheceram as vantagens das propostas, mas questionaram sua concretização. Já os antibolsonaristas e lulistas valorizaram os benefícios, mesmo diante de ressalvas sobre o momento do anúncio.
Assim, o potencial positivo das medidas foi amplamente reconhecido, mas sua capacidade de gerar confiança ficou limitada pela percepção de oportunismo eleitoral e pelas dúvidas sobre sua implementação.

O Monitor do Debate Público (MDP) é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública (LEMEP), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ). Baseia-se no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela própria equipe.
O POMT permite monitorar de modo dinâmico a opinião pública e suas clivagens em torno de temas da agenda pública, preferências, valores e recepção de notícias, entre outros. Opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Como nos grupos focais tradicionais, o formato permite que o moderador aprofunde temas sensíveis, dificilmente acessíveis por pesquisas quantitativas ou questionários estruturados.
O caráter assíncrono, próprio da comunicação no WhatsApp, favorece respostas mais refletidas — vantagem tanto para a pesquisa social quanto para a eleitoral, já que o voto é também uma decisão que costuma exigir reflexão.
Sua continuidade temporal favorece situações deliberativas, em que cada participante é levado a elaborar suas razões em diálogo com as dos demais.
O celular é hoje o meio de comunicação mais acessível e disseminado. Por isso, participar dos grupos não exige computador nem que as pessoas interrompam suas atividades para interagir.
O MDP aplica o POMT à análise semanal do debate público brasileiro, segmentado em seis grupos de diferentes orientações ideológicas, da extrema direita à esquerda — recorte justificado por sua relevância demográfica no cenário atual.

Doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Coordenou o IESP nas Eleições, plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi consultora da UNESCO e coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Presta consultoria em desenho de pesquisa qualitativa e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade. Escreve no blog Legis-Ativo, do Estadão.
Mestre em Filosofia Política pela Unicamp e mestre e doutor em Ciência Política pela City University of New York (Graduate Center). Foi professor do antigo IUPERJ (2003–2010) e é, desde 2010, professor titular de Ciência Política do IESP-UERJ. Coordena o LEMEP, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB).
Cientista social, mestre em Sociologia pela UFPR e doutoranda em Sociologia no IESP-UERJ, com experiência em relações de consumo e estratégias de comunicação. Tem formação em UX Research e em gestão e monitoramento de redes sociais, mídias digitais e estratégias eleitorais. Atua em pesquisas de mercado e campanhas políticas e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade.
Mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Tem experiência em planejamento e desenvolvimento de sistemas computacionais de pequeno e médio porte e em manutenção de servidores web, com especialização em modelagem e implementação de bancos de dados relacionais.
Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do INCT ReDem e dos grupos de pesquisa NUSP e Observatório das Elites, ambos vinculados à UFPR. Dedica-se à representação política parlamentar e à metodologia científica, com experiência no uso de inteligência artificial na pesquisa e na construção e análise de bancos de dados prosopográficos.

O Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) é um centro de pesquisa sediado no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), financiado pelo CNPq e pela Fundação Araucária.
Reunindo mais de 50 pesquisadoras(es) de mais de 25 universidades no Brasil e no exterior, o ReDem investiga, a partir de três eixos de pesquisa (Comportamento Político, Instituições Políticas e Elites Políticas) as causas e consequências da crise das democracias representativas, com ênfase no Brasil.
Sua atuação combina metodologias quantitativas e qualitativas, como surveys, experimentos, grupos focais, análise de perfis biográficos e modelagem estatística, produzindo indicadores e ferramentas públicas sobre representação política, qualidade da democracia e comportamento legislativo.
O objetivo central do ReDem é gerar conhecimento científico de alto impacto e produzir recursos técnicos que auxiliem cidadãos, jornalistas, formuladores de políticas e a comunidade acadêmica a compreender, monitorar e aperfeiçoar a representação política democrática no Brasil.

